Garimpando móveis

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Fonte: Casa e Jardim

Para o publicitário Edson Coutinho, morar na região central de São Paulo é habitar o paraíso. Onde todos veem sujeira, buracos e pichações, seus olhos treinados enxergam diamantes: grades de ferro art déco, letreiros de bronze, marquises revestidas de pastilhas, janelas cinematográficas. Garimpeiro de alma, ele fez desse dom profissão. É coordenador de design e tendências da Tok & Stok, cargo que exige constante pesquisa e viagens para traduzir na escolha de móveis e objetos o espírito do nosso tempo.

O carrinho amarelo com bandejas móveis serve de mesa lateral. A peça dos anos 1960, desenhada por Luigi Massoni para a Fratelli Guzzini, foi comprada na Feira do Bixiga. A sala de estar tem 40 m². Nela, reina uma raridade: o tapete de lã artesanal da extinta Manufatura Santa Helena. Os sofás modelo Joe, fora de linha, são da Tok & Stok, como a banqueta indígena de madeira. Na mesa de centro espelhada, castiçais da Koziol e uma cabeça de cavalo comprada em viagem a Frankfurt (Foto: Casa e Jardim)
As paredes receberam acabamento que lembra concreto – ideia do arquiteto Rodrigo Angulo. A base de madeira da mesa Nogushi foi pintada de verde pelo morador. “Já que não era uma peça original, achei interessante brincar com ela”, disse. A coleção de vasos e cinzeiros contém peças trincadas e pequenos defeitos. Quem tem medo de dourado? A cor norteou a composição de um dos cantos incríveis da sala. As xilografias de Dora Montani (1979) foram compradas em uma feira de antiguidades (Foto: Casa e Jardim)

Seu apartamento de 170 m², num edifício antigo e pouco conservado da metrópole, é um microcosmo dessa realidade na decoração. Em cada ambiente há uma mistura peculiar e multicolorida de móveis desgastados pelo tempo, arte, peças de design imperfeitas, artesanato brasileiro. Reformado sob orientação do arquiteto Rodrigo Angulo, o imóvel passou por poucas mudanças estruturais. As dimensões dos quartos, da sala de estar e da cozinha foram mantidas. Só o banheiro da área de serviço foi invertido e aproveitado para aumentar o banheiro social e o da suíte. “O apartamento era um mar de beges, repleto de escolhas seguras e óbvias. Para cada cômodo criei um cenário”, afirma o morador.

O publicitário Edson Coutinho em companhia da poodle Tapioca. A parede e a porta de entrada foram pintadas com esmalte sintético acetinado. Destaque para a tela que retrata Jesus Cristo entre peixes. Estante Topo, design de Procter/Rihl para a Tok & Stok. Mesa de jantar encontrada na feira da praça Benedito Calixto, em São Paulo. As cadeiras vieram de um depósito em Ceilândia, DF. O piso de peroba-rosa é original do apê. Primeira peça de mobiliário comprada por Edson, o bufê de cabriúva dos anos 1950 foi achado nas Casas André Luiz. Já a cadeira de escola veio do Lar Escola São Francisco. Painel espelhado de acrílico da Ikea. Jogo de castiçais da holandesa Romi ao lado de cerâmicas dos anos 1950 feitas de “raspa de coco” (Foto: Casa e Jardim)
O tom vivo do papel de parede da Leroy Merlin francesa é neutralizado pela tinta acrílica acetinada na cor azul, da Sherwin-Williams (SW 6487). Apoiados sobre o aparador, pôsteres do escultor Alexander Calder. Luminária desenhada por Ana Galli. Anões Plastik e almofadas Empório Beraldin. O cavalinho de madeira foi comprado no Lar Escola São Francisco. Tapete Nugem, de viscose, da Tok & Stok. Da caçamba para a sala de TV. O banco de obra, encontrado por Edson quando dirigia pela cidade, deu origem ao aparador. A peça machucada recebeu apenas uma resina transparente para não soltar os resíduos. Pássaros artesanais de Lagoa Dourada, MG, para a Tok & Stok (Foto: Casa e Jardim)

As paredes do estar remetem ao concreto das edificações de Brasília, sua terra natal. Para complementá-las, a parede da entrada principal foi pintada de amarelo, formando um painel contínuo bem pop. A cozinha é lúdica, explora tons de rosa-claro,laranja, amarelo-flúor e verde. Já a sala de TV mostra o contraste do papel estampado fúcsia e vermelho com as paredes azuis.

O resgate da natureza aparece nas cores e na montagem da sala de TV. Na parede, gravura de Maria Bonomi, pintura em veludo de um veado e pratos comprados na feira de San Telmo, em Buenos Aires. Ao lado da poltrona de capitonê restaurada, um símbolo do artesanato brasileiro: banco feito de madeira e raízes, do mestre Fernando, da Ilha do Ferro, povoado de Alagoas. O piso de ladrilho hidráulico da Dalle Piagge dá um ar vintage ao banheiro. A pia de concreto moldado tem metais dourados. Espelho comprado no Lar Escola São Francisco. O quadro emoldura um lenço adquirido em Brasília, na A Referência Galeria de Arte. Mesa da Casa Velha. A cadeira é presente de um amigo (Foto: Casa e Jardim)
O visual “paradisíaco” do banheiro social é dado pela cortina do boxe, da Tok & Stok, e pelas pastilhas hexagonais que revestem o ambiente. Comprado na Recesa, o lote estava fora de linha e custou R$ 10 o m². A coleção de toy art e brinquedos antigos decora o corredor do apê. O suporte de acrílico com divisórias foi comprado nas ruas do bairro paulistano do Bixiga (Foto: Casa e Jardim)

Se o passeio predileto dos paulistas é o shopping, o deste publicitário radicado em São Paulo há dez anos é explorar feiras de antiguidades e ruas temáticas. Nada escapa ao seu olhar. “Sou daqueles que reparam no último objeto da prateleira. Examino cada detalhe.” Foi assim que conseguiu decorar seu primeiro imóvel com peças originais, como um bufê de cabriúva arrematado nas Casas André Luiz. “Estava lascado e sem uma gaveta, mas quem se importa? Ele era lindo assim”, conta. O mesmo vale para a cadeira de escola azul garimpada no Lar Escola São Francisco. Durante a reforma do apartamento, ela quase foi para o lixo por engano, com os entulhos. “Salvei-a novamente”, brinca.

A cozinha original era bege. A combinação multicolorida nasceu após vários testes de tinta. A parede da bancada recebeu esmalte sintético rosa acetinado e os armários laminados, amarelo-flúor. O fogão de ágata Continental funciona e veio do Lar Escola São Francisco. Mesa Magis, da By Design (loja já fechada). Frutas de vidro da rua 25 de Março. O painel com imagem de zebra é, na verdade, um edredom comprado na rua 25 de Março e repaginado. Chaise LC4, de Le Corbusier, da Tok & Stok. Um vaso de cristal originou o abajur (Foto: Casa e Jardim)

Impossível passar despercebido diante do fogão de ágata da Continental, que funciona perfeitamente. “As pessoas têm mania do novo: cheiro de carro novo, fogão autolimpante de inox… Tenho uma peça única, exclusiva, impregnada de história”, diz. E aquela superstição de que coisas quebradas dão azar? “Estaria perdido”, conclui, enquanto arruma seu cavalo de cerâmica chinês de rabo colado.

Gostou? Emoldure. Os papéis de presente comprados em Berlim, de tão lindos, viraram quadros e enfeitam a cabeceira da cama (Foto: Casa e Jardim)
O papel de parede adamascado veio na mala de viagem diretamente de Frankfurt. Aplicado no teto do quarto, dá efeito óptico à noite. O lustre de cristal com braços está incompleto e foi comprado na feira da praça Benedito Calixto, em São Paulo (Foto: Casa e Jardim)
A coleção de mais de 30 Snoopys remete à infância do morador (Foto: Casa e Jardim)

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Fontes: Revista Casa & Jardim.

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